Expansão de Memória

Entrei na Saraiva em busca de um presente para o meu amigo oculto (ou secreto, como se diz em outras paragens) que de tão oculto nem eu mesma sabia quem era.

Eis que me deparei com o novo livro do Luis Fernando Veríssimo, “Diálogos Impossíveis”. Sempre gostei de seus livros e um livro de crônicas é ideal para ler no verão, à beira da piscina. Entre um mergulho e outro, com crianças gritando e os adultos conversando em volta não dá para manter a concentração por mais de duas ou tres páginas de cada vez.

Fiquei dividida entre comprar o livro para mim ou para presentear. Na mesma bancada da livraria encontrei um livro de viagens da Martha Medeiros, “Um Lugar na Janela” que me pareceu mais indicado para presentear a minha amiga oculta desconhecida. Eu não sabia quem era ela (a amiga, não a Martha) mas sabia que tinha uns 90% de chance de acertar. E fiquei com o Veríssimo para mim. O livro, é claro.

Depois de algumas crônicas, um tema recorrente me chamou a atenção. O passar dos anos e a memória.

Eu sempre tive memória fraca, ruim mesmo. Canso de passar vergonha por não reconhecer as pessoas do meu passado. No outro dia, numa festa, acertei a pessoa mas errei o nome. Tudo bem que eu não a via há mais de 30 anos mas o momento é sempre desconfortável.

dori

É pior ainda quando as pessoas se lembram de mim e eu não tenho a menor ideia de quem são ou de onde conheço.

Na época em que usava o MSN, ao invés de colocar a minha foto, usei a imagem da Dori, aquela peixinha do filme Procurando Nemo que não conseguia reter nada na memória.

E o que isso tudo tem a ver com tecnologia?
Calma! Estou chegando lá.
Para que a pressa? Dizem que o mundo vai acabar hoje mas mas já temos relatos de que o dia 21/12/2012 já chegou no Japão e ele continua intacto. Ou, como já li no Facebook, o fim do mundo já chegou mas eles reconstruiram tão rápido que ninguém percebeu.

Uma das crônicas do Veríssimo que me inspirou para este artigo foi de uma pessoa que numa roda de amigos, por falta de coisa melhor para dizer, contou que sua tia havia caído no Sena, aquele rio que corta a cidade de Paris. Quando os amigos quiseram saber mais, ficou muda, não tinha mais detalhes. Ninguém na família sabia como, quando, porquê. A tia, velhinha, também não lembrava mais. Para não desapontar os amigos, o jeito foi inventar uma história mirabolante para explicar a queda no Sena.

Para pessoas como eu, que tem dificuldade para armazenar lembranças, e para todas para quem a memória um dia vai se enfraquecer, essa mania atual que temos de fotografar tudo e postar no Facebook é um achado!

Sem perceber, vamos criando diários virtuais, registros do cotidiano, dos encontros de amigos, dos momentos felizes.
Diferente dos álbuns de fotografias do passado, os comentários dos amigos em cada uma ajudam a cristalizar o registro estático da foto com os sentimentos daquele instante que vai ficando cada vez menos nítido com a passagem do tempo.

E mesmo aqueles momentos que pensávamos já totalmente esquecidos, voltam à tona com as velhas fotografias escaneadas e publicadas.

Se você tem mais de 40 e já encontrou seus amigos de infância ou adolescência no Facebook com certeza sabe do que estou falando. Tem sempre aqueles com memória prodigiosa que lembram das coisas como se tivessem acontecido ontem e ajudam os mais desmemoriados como eu.

Sem contar os inúmeros vídeos que agora são possíveis com quase qualquer celular. Já me arrependi de não ter filmado alguns momentos hilariantes da troca de presentes de ontem. No mes que vem os detalhes já vão ter desaparecido da minha memória. Ainda bem que tenho as fotos, obviamente publicadas no Facebook e devidamente acompanhadas dos comentários que me ajudarão a lembrar.

O Facebook, as fotos e videos, os registros digitais, tudo funciona como uma expansão de memória. Já que não conseguimos armazenar tudo na nossa, é bom ter uma memória auxiliar.

Para aqueles que não gostam muito de aparecer em fotos ou que se incomodam com essa sanha fotográfica dos amigos, pensem que um dia, lá no futuro, será gostoso poder navegar por esse passado virtual e relembrar.

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